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Que Fim Levaram os Fazendeiros?
Brian Halweil
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A globalização da indústria e do comércio está uniformizando cada vez mais a gestão das terras mundiais e ameaçando a diversidade de lavouras, ecossistemas e culturas. À medida que a agricultura industrial se alastra, quem lavra sua própria terra – e quase sempre quem a melhor maneja – é forçado à servidão ou expulso. Desde 1992, o Corpo de Engenharia do Exército dos Estados Unidos vem desenvolvendo planos para ampliar o sistema de diques e comportas ao longo do Rio Mississipi. O Mississipi é a principal via de escoamento da soja americana para os mercados mundiais – cerca de 35.000 toneladas por dia. Estes planos significam despejar cerca de 1,2 milhões de toneladas de concreto para ampliar dez das comportas, de 180 para 360 metros cada, como também reforçar vários espigões que estreitam o rio, mantendo as barcaças de soja em movimento e evitando a sedimentação. Esta construção complementaria as dragas já existentes que retiram 85 milhões de metros cúbicos de areia e lama do fundo e das margens do rio a cada ano. Vários níveis diferentes de “aperfeiçoamento” do rio foram considerados, porém o mais ambicioso supostamente reduziria o custo do transporte de soja de 4 a 8 centavos de dólar por bushel [35,24 litros]. Alguns analistas independentes consideram este plano impraticável. Aproximadamente na mesma época em que o projeto para o Mississipi foi anunciado, os cinco países da Bacia do Prata, na América do Sul – Bolívia, Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai – anunciaram planos para a dragagem de 13 milhões de metros cúbicos de areia, lama e pedra, em 233 locais ao longo do Rio Paraguai - Paraná.. Esta quantidade daria para encher um comboio de caminhões basculantes de 16.000 quilômetros de extensão. Aqui, o projeto é alinhar a sinuosidade natural do rio em pelo menos sete locais, construir dezenas de comportas e um grande porto no coração do Pantanal – a maior região alagada do mundo. O Paraguai - Paraná flui pelo centro da emergente região de soja do Brasil – atrás apenas dos Estados Unidos em produção e exportação. De acordo com declarações do Governo do Estado do Mato Grosso, esta hidrovia dará um maior incremento à capacidade de exportação de soja da região. Lobistas para ambos os projetos argumentam que a expansão da capacidade de navegabilidade das barcaças nesses rios é necessária, a fim de proporcionar maior competitividade, conquistar fatias de mercado e retirar os fazendeiros (americanos ou brasileiros, dependendo a quem os lobistas estejam se dirigindo) de sua pior crise financeira desde a Grande Depressão. Chris Brescia, Presidente da Midwest River Coalition 2000, uma aliança de transportadoras de produtos primários que compõe a principal força lobista do projeto do Mississipi, diz, “Quanto mais cedo fornecermos uma estrutura hidroviária, mais cedo nossos fazendeiros se beneficiarão.” Alguns dos seus colegas lobistas chegam a argumentar que esses projetos são essenciais para a alimentação mundial (uma vez que as barcaças poderão acelerar o envio da soja para as massas famintas globais) e para a salvação do meio-ambiente (uma vez que as massas famintas não terão que desmatar as florestas para extrair sua própria subsistência). Provavelmente, pouquíssimas pessoas tiveram oportunidade de ouvir ambos os argumentos e compará-los. Todavia, quem o fez poderá achar que algo não soa bem no argumento que os fazendeiros americanos se tornarão mais competitivos em comparação aos brasileiros, ao mesmo tempo que os fazendeiros brasileiros, pelas mesmas razões, se tornarão mais competitivos em comparação aos americanos. Um resultado mais provável é que os fazendeiros destas duas nações estarão se confrontando numa corrida onerosa para maximizar a produção, provocando práticas que irão essencialmente degradar seus solos e lançar às favas os investimentos de longo prazo. Os fazendeiros em Iowa se sentirão mais incentivados a arar as terras ao longo dos rios, acelerando a erosão da camada superior do solo. Seus irmãos no Brasil se virão forçados a penetrar mais no cerrado, também acelerando a erosão. Realmente, o fluxo da soja irá aumentar – tanto no norte como no sul. Mas também irá deprimir ainda mais os preços e assim, mesmo quando os fazendeiros embarcam mais quantidade, recebem menos receita por tonelada transportada. De qualquer maneira, volumes crescentes não ajudarão à sobrevivência dos fazendeiros a longo prazo, pois mais cedo ou mais tarde serão engolidos pelas grandes fazendas corporativas que podem compensar as margens menores, por tonelada, produzindo volumes maiores. Então, como podem os que apoiam esses projetos fluviais, que se proclamam defensores dos melhores interesses dos fazendeiros, não perceber a ilogicidade dessa forma de competição? Uma explicação é que, do ponto de vista dos defensores (contrariamente ao dos fazendeiros), essa competição não é, de forma alguma, ilógica – já que os lobistas, na realidade, não representam os fazendeiros. Trabalham para empresas processadoras, transportadoras e comercializadoras de commodities que desejam a queda do preço da soja, pois são elas que adquirem os produtos dos lavradores. Na realidade, são os mesmos três conglomerados do agronegócio – Archer Daniels Midland (ADM), Cargill e Bunge – os maiores processadores e comercializadores de soja ao longo de ambos os rios. Bem-vindos sejam à economia global! Quanto mais violentamente os fazendeiros americanos e brasileiros abaterem seus preços (e padrões de vida), maior a margem de lucro desses três gigantes. Enquanto isso, outro punhado de empresas controla os mercados de sementes geneticamente modificadas, fertilizantes e herbicidas utilizados pelos fazendeiros – cobrando preços oligopolisticamente altos, tanto ao norte quanto ao sul do Equador. Ao avaliar o que essa escavação e reconfiguração de duas das maiores bacias hidrográficas do mundo realmente significa, mantenha em mente que esses projetos não serão atividades de negócios privados, operando em suas propriedades privadas. São obras públicas sendo propostas, a serem realizadas a um custo público imenso. O motivo não é a má situação do pequeno lavrador nem qualquer obrigação moral para alimentar o mundo, mas sim a oportunidade de explorar os sentimentos de um público mal informado sobre as dificuldades dos fazendeiros ou as massas famintas, como um meio de usurpar políticas públicas em benefício próprio. O que realmente fica enlameado em todo esse processo é que, além de conduzir os fazendeiros para um combate de gladiadores, esses projetos provavelmente trarão uma sucessão de impactos econômicos, sociais e ecológicos adversos às próprias bacias hidrográficas tão dispendiosamente remodeladas. O que acontecerá se o sistema de diques e comportas do Mississipi for ampliado, conforme o projeto? O resultado mais óbvio será um tráfego mais intenso de barcaças, que desencadeará uma sucessão menos óbvia de ocorrências já em andamento há algum tempo, de acordo com Mike Davis, do Departamento de Recursos Naturais de Minnesota. A maior parte do ecossistema do Rio Mississipi contém plantas aquáticas, como junco, seta e aipo silvestre. Um aumento do tráfego de barcaças levantará mais sedimento, obscurecendo a luz solar e reduzindo a profundidade onde as plantas sobrevivem. Já desde a década de 70, o número de espécies aquáticas encontradas em partes do rio foi reduzido de 23 para cerca da metade, com apenas um punhado conseguindo viver sob as condições mais turvas. “Algumas áreas do rio chegaram a um ponto ecológico decisivo,” alerta Davis. “Este declínio na diversidade vegetal provocou uma queda nas comunidades de invertebrados que vivem nessas plantas, como também uma queda em peixes, moluscos e aves que dependem da diversidade de insetos e plantas.” Em 18 de maio de 2000, o U.S. Fish and Wildlife Service [Serviço de Fauna e Pesca dos Estados Unidos] publicou um estudo declarando que o projeto do Corpo de Engenharia ameaçaria as 300 espécies de aves migratórias e 127 espécies de peixe na bacia hidrográfica do Mississipi, causando possivelmente a extinção de algumas. “A pequena andorinha-do-mar, o esturjão pálido e outras espécies que evoluíram no fluxo e refluxo, nos bancos de areia e no fundo do rio estão sendo gradativamente eliminadas ou expulsas à medida que a diversidade dos habitats naturais do rio é removida para maximizar os habitats das barcaças,” diz Davis. A perspectiva para a projeto da hidrovia brasileira é semelhante. Mark Robbins, um ornitólogo do Museu de História Natural da Universidade de Kansas, o descreve como “um passo importante para criar um cenário de destruição no Pantanal semelhante ao Everglades da Flórida e um cenário semelhante às Great Plains americanas no cerrado do sul do Brasil.” O Paraguai - Paraná abastece o Pantanal, um dos habitas mais diversificados do planeta, com suas populações de maguaris, gaviões-caramujeiros, carões, jabirus e mais de 650 outras espécies de aves, como também mais de 400 espécies de peixes e centenas de outros vegetais menos pesquisados, mexilhões e organismos de brejo. À medida que o rio é dragado e as margens elevadas para canalizar a água para a via de navegação, os habitas para os ninhos de aves e as áreas de desova de peixes serão eliminados, prejudicando as sociedades indígenas e tradicionais que dependem destes recursos. O tráfego mais intenso das barcaças suprimirá as espécies fluviais, aqui, da mesma forma que no Mississipi. Enquanto isso, as monoculturas da soja, intensivas no uso de herbicidas – em fazendas tão gigantescas que fazem as grandes propriedades do Centro-Oeste americano parecerem pequenas – estão substituindo rapidamente as pradarias diversificadas do frágil Cerrado. A lavragem intensa e ausência periódica de cobertura do solo associados com este cultivo, erode 100 milhões de toneladas de solo por ano. Robbins observa que “em comparação ao Mississipi, este sistema fluvial e sua pradaria circundante, é mais diversificado em várias ordens de grandeza e, tendo sido muito menos afetado, corre um risco bem maior.” Os defensores desta perturbação maciça argumentam que ela se justifica por ser a forma mais “eficiente” de se fazer negócio. A eficiência desse cultivo pode ser comparada à eficiência de um sistema energético com base no carvão. A queima do carvão parece muito eficiente se ignorarmos os impactos de longo prazo na qualidade do ar e estabilidade do clima. Igualmente, grandes lavouras parecem mais eficiente do que as pequenas se não considerarmos alguns dos seus custos maiores – a perda da diversidade genética que embasa a agricultura, a poluição causada por agrotóxicos e o deslocamento de culturas rurais. A simultaneidade do desaparecimento do pequeno lavrador independente com o crescimento dos gigantes multinacionais dos alimentos é preocupante, não apenas para aqueles que se identificam com os lavradores deslocados, mas também para qualquer um que se alimenta. Uma Espécie Ameaçada Hoje em dia, a maioria de nós nos países industrializados não se dedica à lavoura, portanto não conhecemos realmente este modo de vida. Nasci na região macieira e leiteira do Condado de Dutchess, Nova Iorque, mas desde os cinco anos de idade vivi a maior parte da minha vida na Cidade de Nova Iorque – enquanto a maioria das fazendas do Condado de Dutchess se subdividiam. Também é difícil para nós. que obtemos nossos alimentos das prateleiras dos supermercados, ou janelas “drive-thru,” perceber o nosso grau de dependência da viabilidade das comunidades rurais. Seja no mundo industrializado, onde as comunidades agrícolas estão envelhecendo e se esvaziando, ou nos países em desenvolvimento, onde o crescimento populacional está elevando cada vez mais o número de lavradores e cada geração herdando lotes menores, é cada vez mais difícil tirar o sustento da agricultura. Uma combinação de declínio de renda, elevação de dívida e agravamento da pobreza rural, está forçando mais pessoas a abandonarem a lavoura como atividade principal, ou o próprio campo – uma encruzilhada desnorteante, considerando que os fazendeiros produzem o único bem do qual a raça humana não pode se privar. Desde 1950, o número de pessoas empregadas na agricultura despencou em todos os países industrializados, chegando a quase 80 porcento em algumas regiões. Analisando os números pode-se pensar que os fazendeiros estão sendo selecionados por algum tipo de vírus: • No Japão, mais da metade dos fazendeiros tem mais de 65 anos de idade; nos Estados Unidos, a relação dos fazendeiros com mais de 65 anos para os que estão abaixo de 35 é de três por um. (Na aposentadoria ou morte, muitos passarão a fazenda para filhos que vivem na cidade e não têm interesse na agricultura.) • Na Nova Zelândia, as autoridades calculam que 6.000 fazendas de gado leiteiro desaparecerão nos próximos 10 a 15 anos – reduzindo o número total em quase 40 porcento. • Na Polônia, 1,8 milhões de fazendas podem desaparecer à medida que a nação é absorvida pela União Européia – reduzindo o número total em 90 porcento. • Na Suécia, o número de fazendas que se extinguirão na próxima década deverá alcançar cerca de 50 porcento. • Nas Filipinas, a Oxfam calcula que nos próximos anos o número de famílias agrícolas na região produtora de milho, em Mindanao, poderá sofrer um declínio de aproximadamente 500.000 – uma perda de 50 porcento. • Nos Estados Unidos, onde a maior parte da população era agrícola na ocasião da Revolução Americana, há menos pessoas hoje se dedicando integralmente à agricultura (menos de 1 porcento da população) do que existem de presidiários em tempo integral. • Nos estados norte-americanos de Nebraska e Iowa, entre um quinto e um terço dos fazendeiros estarão falidos dentro de dois anos. Naturalmente, os números declinantes de fazendeiros nas nações industrializadas não significam uma redução da importância do setor agrícola. O mundo ainda precisa comer (e 80 milhões mais de bocas para alimentar a cada ano), portanto número menor de fazendeiros significa maiores fazendas e maior concentração de posse. Apesar de uma queda vertiginosa no número de pessoas empregadas na agricultura na América do Norte, Europa e Ásia Oriental, metade da população mundial ainda retira seu sustento da terra. Na África sub-saariana e no Sul da Ásia, mais de 70 porcento o fazem. Nestas regiões, a agricultura representa, em média, metade da atividade econômica total. Alguns podem argumentar que o declínio dos fazendeiros não tem importância maior, e seja até mesmo uma bênção, particularmente nos países em desenvolvimento que não passaram pela modernização que transfere camponeses de regiões rurais atrasadas para as economias mais avançadas das cidades. Durante a maior parte dos dois últimos séculos, a mudança que causa a redução do número de fazendeiros foi geralmente considerada como um tipo de progresso. A substituição de mulheres lentas e homens com enxada por tratores a diesel, de alta potência, ou grupos de pequenas lavouras “antiquadas” por grandes fazendas industriais mecanizadas, é vista caracteristicamente como o caminho para uma maior abundância e disponibilidade de alimentos. Nossa sociedade urbana já chega a considerar a vida rural, especialmente sob a forma de pequenos negócios familiares, como atrasada ou entediante, adequada apenas para pessoas que vestem macacões e dormem cedo – longe da sofisticação e dinamismo da cidade. A vida urbana realmente proporciona uma gama de oportunidades, atrações e esperanças – algumas criadas artificialmente pela mídia comercial urbana – que muitas famílias rurais decidem buscar voluntariamente. Porém, a vida urbana é freqüentemente desapontadora quando fazendeiros deslocados se vêem alojados em cortiços, onde o desemprego e doença são a norma e onde vivem pior do que de onde vieram. Há evidências que sugerem que o que traz os fazendeiros à cidade não é tanto a atração urbana e sim terem sido expulsos de suas terras por uma variedade de mudanças estruturais nas operações da cadeia alimentícia global. Bob Long, um rancheiro no Condado de McPherson, Nebraska, declarou num artigo recente do New York Times que transferir a fazendo para seu filho seria nada mais que “abuso infantil.” Enquanto as cidades permanecerem sob a pressão do crescimento populacional (uma situação que deverá continuar pelo menos pelas próximas três a quatro décadas), sempre haverá pressão para uma parcela maior da humanidade subsistir no campo. Mesmo na América do Norte e Europa, altamente urbanizadas, cerca de 25 porcento da população – 275 milhões de pessoas – ainda reside em áreas rurais. Enquanto isso, para os 3 bilhões de africanos, asiáticos e latino-americanos que continuam no campo – e que lá permanecerão no futuro previsível – a marginalização dos fazendeiros estabeleceu um círculo vicioso de baixa conquista educacional, alta mortalidade infantil e aprofundamento de angústia mental. Servos em Suas Próprias Glebas Nos séculos XVIII e XIX, os fazendeiros não estavam tão enredados. A maioria não era rica, mas em geral gozava de um renda estável e fortes laços comunitários. Fazendas diversificadas produziam uma variedade de produtos primários e processados que o fazendeiro podia vender nos mercados locais. Os custos de produção eram inferiores aos de hoje, pois a maioria dos insumos necessários eram produzidos na própria fazenda: os fazendeiros plantavam as sementes que armazenavam no ano anterior, as vacas e porcos proporcionavam o adubo e a diversidade de lavouras – geralmente uma grande variedade de grãos, tubérculos, legumes e verduras, ervas, flores e frutas para uso doméstico e para venda – funcionava efetivamente como um controle de pragas. As coisas mudaram, especialmente no último meio século, de acordo com o economista agrícola do Estado de Iowa, Mike Duffy. “O fim da II Guerra Mundial foi um divisor de águas,” diz ele. “A introdução generalizada de fertilizantes químicos e pesticidas sintéticos, produzidos como parte do esforço de guerra, desencadeou mudanças dramáticas no estilo da agricultura – e um declínio dramático no número de fazendeiros.” No período pós-guerra, juntamente com a mecanização crescente, surgiu uma tendência cada vez maior de “terceirizar” tarefas que os fazendeiros anteriormente realizavam – desde a produção do próprio adubo até a limpeza e embalagem da sua colheita. Esta terceirização, que pode ter sido uma conveniência bem-vinda na época, acabou revertendo em prejuízo: inicialmente, permitiu que os fazendeiros aumentassem a produção e, assim, seus lucros, porém quando todos os fazendeiros acompanharam esta prática, os preços começaram a cair. Logo a atividade de processamento e embalagem estava agregando mais “valor” ao produto adquirido do que o fazendeiro e foram estas atividades que se tornaram os atores dominantes na indústria alimentícia. Ao invés de fazendeiros terceirizando empreitadas, os grandes processadores de alimentos, nas suas próprias condições, adquiriam a matéria prima dos fazendeiros. Hoje, o maior valor está no trabalho que o fazendeiro não realiza mais – ou até mesmo controla. Nos Estados Unidos, a parcela do dólar do consumidor que pinga de volta ao produtor caiu de quase 40 centavos em 1910 para pouco mais de 7 centavos em 1997, enquanto as parcelas que vão para as empresas de insumos (maquinário, agrotóxico e sementes) e comercialização (processamento, embarque, corretagem, publicidade e varejo), continuam a expandir. O típico produtor de trigo nos Estados Unidos, por exemplo, recebe apenas 6 centavos do dólar pago por uma bisnaga de pão – portanto, quando você compra o pão, está pagando quase o mesmo pela embalagem que para o trigo. Ironicamente, à medida que as fazendas americanas se tornaram mais mecanizadas e mais “produtivas,” um ‘ciclo de retorno’ auto-destrutivo foi colocado em movimento: o excesso de oferta e preços declinantes corroeram os lucros dos fazendeiros, alimentando uma demanda por mais tecnologia destinada a compensar margens de lucro reduzidas, aumentando os volumes ainda mais. A produção aumentou dramaticamente, porém as despesas (com tratores, colheitadeiras/trilhadeiras combinadas, fertilizantes e sementes) também dispararam – enquanto os preços das commodities estagnaram ou caíram. Mesmo enquanto buscavam mais e mais modernização, os fazendeiros se tornavam menos e menos senhores de seus próprios domínios. Numa fazenda típica de Iowa, a margem de lucro do fazendeiro caiu de 35 porcento em 1950 para 9 porcento hoje. A fim de gerar a mesma receita, esta fazenda teria que ser aproximadamente quatro vezes maior hoje do que em 1950 – ou então o fazendeiro precisaria pegar um trabalho noturno. E isto é exatamente o que vemos na maioria dos países industrializados: menos fazendeiros em maiores extensões de terra produzindo uma parcela maior do suprimento total de alimentos. O fazendeiro com margens declinantes compra a terra do vizinho e amplia, ou arrisca-se a ser, ele mesmo, canibalizado. Há uma alternativa para essa expansão gigantesca, que é reverter a tendência e trazer parte do suprimento de insumos e processamento pós-colheita – e seus lucros correspondentes – de volta à fazenda. Porém, mais lavouras auto-suficientes seriam altamente impopulares para as indústrias que hoje obtêm altos lucros com insumos e processamento. E uma vez que estas indústrias têm muito mais força política do que os fazendeiros, há pouco apoio para tirar os fazendeiros das suas condições cada vez mais servis – e essa idéia praticamente já caiu no esquecimento. Os fazendeiros continuam a perceber que o único caminho para o sucesso é se tornar grande. A explicação tradicional para essa pressão constante de “crescer ou dar o fora” foi que torna a rede alimentícia mais eficiente – maiores fazendas substituem as menores, uma vez que as maiores operam a custos mais baixos. Sob certos aspectos, isto é verdade. A expansão permite que o fazendeiro dilua o custo de um trator por uma área maior, por exemplo. Um porte maior também significa maior alavancagem na compra de insumos ou na negociação de crédito – cada vez mais importante quando colheitadeiras combinadas e outros equipamentos orientados por satélite tornam a agricultura mais intensiva em capital. Porém, essas economias de escala caracteristicamente se estabilizam. Dados para uma variedade de produtos cultivados nos Estados Unidos mostram que os custos de produção mais baixos são geralmente alcançados em fazendas bem menores do que a fazenda típica de hoje. Mas as grandes fazendas podem suportar margens menores e assim, embora não produzam a custo menor têm condições de vender a um preço menor, se a isto forem forçadas – como realmente o são pelos processadores de alimentos que adquirem seus produtos. Em suma, na medida em que uma fazenda gigante tem benefício financeiro sobre uma pequena, é um benefício que só favorece o processador – e não o fazendeiro, a comunidade agrícola ou o meio-ambiente. Esta saída do dólar alimentício dos fazendeiros é agravada pelas concentrações intensas em cada elo da cadeia alimentícia – desde as sementes e herbicidas até o crédito agrícola e o varejo. No Canadá, por exemplo, apenas três empresas controlam mais de 70 porcento das vendas de fertilizantes, cinco bancos oferecem a grande maioria do crédito agrícola, duas empresas controlam mais de 70 porcento dos frigoríficos de carne e cinco empresas dominam o varejo de produtos alimentícios. A fusão da Philip Morris e Nabisco criará um império que recolherá quase 10 centavos de cada dólar que um consumidor gasta em alimentos, de acordo com um porta-voz de uma empresa. Tal concentração pode ser mortal para as bases, permitindo que as empresas de agronegócios obtenham preços mais altos pelos produtos que os fazendeiros adquirem delas, enquanto ofertam preços menores pelos produtos que adquirem dos fazendeiros. Uma forma de concentração ainda mais preocupante, de acordo com Bill Heffernan, um sociólogo rural da Universidade de Missouri, é o surgimento de vários grupos de empresas que, através de fusões, aquisições e alianças com outros elos da cadeia alimentícia, possuem hoje um “controle inconsútil e totalmente verticalizado da rede alimentícia, desde o gene até a prateleira do supermercado.” Consideremos a parceria recente entre Monsanto e Cargill que controla sementes, fertilizantes, pesticidas, crédito agrícola, colheita e processamento de grãos, processamento de ração animal, pecuária e abate, como também algumas marcas famosas de alimentos processados. Do ponto de vista de uma empresa como a Cargill, tais alianças geram um controle tremendo sobre os custos e assim são extremamente lucrativas. Mas, imaginemos que você é o fazendeiro. Quer comprar sementes para cultivar milho? Se a Cargill for o único comprador de milho num raio de 160 quilômetros, e só compra uma variedade específica de milho Monsanto para suas fábricas, silos ou forragem, então se você não plantar a semente Monsanto não terá mercado para seu milho. Precisa de um empréstimo para comprar a semente? Vá ao Banco de Ellsworth (que pertence à Cargill) mas não deixe de informar que semente estará comprando. Mencione também que irá comprar o fertilizante da marca Saskferco, da Cargill. Tudo bem, mas se quando o milho é cultivado você não estiver propenso a vender ao preço ditado pela Cargill? Bem, aí talvez você alimente os porcos com o milho, vendendo-os a quem pagar mais. Sem problema – a Excel Corporation, da Cargill, também compra porcos. OK, você vai mudar para a cidade e abandonar a agricultura. Não mais aqueles grãos grossos no café da manhã, você agora compra flocos de milho. Boa notícia: a Cargill Foods fornece a farinha de milho para os fabricantes das principais marcas de cereais. Você notará, entretanto, que todas as grandes marcas têm o mesmo alto preço, por onça. Afinal, são todas fabricadas pelo oligopólio agrícola. À medida que esses conglomerados alimentícios verticais se consolidam, alerta Heffernan, “sobra pouco espaço na rede alimentícia global para os fazendeiros independentes” – para quem cada vez mais sobram os contratos “pegue ou largue” dos conglomerados. Nas duas últimas décadas, por exemplo, a parcela do produto agrícola norte-americano produzida sob contrato mais que triplicou, de 10 para 35 porcento – e isto não inclui os contratos que os fazendeiros são obrigados a assinar para o plantio de sementes geneticamente modificadas. Este controle centralizado da rede alimentícia, na qual os fazendeiros na realidade são reduzidos a servos em suas próprias glebas, traz à mente de Heffernan as fazendas estatais russas, mas com o papel do Grande Irmão sendo hoje desempenhado pelos executivos do agronegócio. É também reminiscente do “armazém da companhia” que outrora predominava nas pequenas cidades industriais ou mineiras americanas, com a exceção que, se hoje você mudar de cidade, o armazém continua com você. O armazém da companhia globalizou-se. Com os conglomerados, donos do dólar alimentício e também possuidores da força política, não é surpresa que a política agrícola – incluindo subsídios, incentivos fiscais e legislação ambiental tanto em nível nacional quanto internacional –não favoreça em geral às fazendas. Por exemplo, os conglomerados detêm uma influência crescente sobre as prioridades de pesquisa agrícola, tanto privada quanto pública, o que pode explicar porque o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), um órgão aparentemente compromissado com os fazendeiros, ajudou a desenvolver a tecnologia “Terminator” de esterilização de sementes – uma biotecnologia que apenas proporciona aos fazendeiros maior dependência dos fornecedores de sementes. Em alguns casos, a influência é indireta, como demonstrado nas decisões de financiamento governamental, enquanto em outros é mais óbvia. Quando a Novartis forneceu US$ 25 milhões para financiar uma parceria de pesquisa com o departamento de biologia vegetal da Universidade da Califórnia, em Berkeley, uma das condições foi que a Novartis teria o primeiro direito de recusa para qualquer invenção patenteável. Nestas condições, naturalmente, as autoridades da UC – conscientes de onde vêm seus recursos – têm grande motivação para dedicar mais atenção a tecnologias como a da semente “Terminator,” que retira o lucro do fazendeiro, do que para tecnologias que beneficiem diretamente o fazendeiro ou o público em geral.
Mesmo as políticas que são alardeadas como de maior interesse para os fazendeiros, como a liberação do comércio em produtos agrícolas, são cada vez mais desenvolvidas por não-fazendeiros. Comerciantes, processadores e distribuidores agrícolas, por exemplo, foram alguns dos principais arquitetos das revisões recentes do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) – o precursor da Organização Mundial do Comércio – que abriu caminho para um maior fluxo comercial das commodities agrícolas. Antes dessas revisões, muitos países tinham mecanismos que asseguravam que os fazendeiros não seriam retirados de seus próprios mercados locais por comerciantes globais predatórios. Os comerciantes, entretanto, conseguiram acabar com estas proteções. A capacidade do agronegócio de deslizar em torno do planeta, comprando ao preço mais baixo possível e vendendo ao mais alto, ajudou a aumentar o aperto já estabelecido pela marginalização econômica, lançando todos os fazendeiros do planeta numa concorrência direta entre si. Uma avaliação recente da Organização de Alimentos e Agricultura das Nações Unidas (FAO) sobre a experiência de 16 nações em desenvolvimento na implementação da última fase do GATT, concluiu que “uma preocupação comum foi a tendência geral em direção à concentração de fazendas,” um processo que tende a marginalizar ainda mais os pequenos produtores e agravar a pobreza e o desemprego rural. A triste ironia, de acordo com Thomas Reardon, da Universidade do Estado de Michigan, é que enquanto os pequenos produtores em todas as partes do mundo estão sendo cada vez mais afetados pela importação de alimentos baratos, altamente subsidiados, de fora de seus mercados rurais tradicionais, são também excluídos da oportunidade deles mesmos participarem das exportações de alimentos. A fim de manter os custos comerciais baixos e a uniformidade do processamento, os exportadores e outros atores secundários preferem comprar de poucos grandes produtores, ao invés de muitos pequenos produtores. Á medida que a rede alimentícia global se torna cada vez mais dominada por um punhado de corporações internacionais, verticalmente integradas, a servidão do fazendeiro aponta para uma servidão social mais ampla, que os cartéis dos alimentos, à semelhança da OPEP, podem impor, através do seu controle sobre os preços e qualidade dos alimentos. Economistas agrícolas já observaram que o distanciamento crescente entre os preços dos alimentos no varejo e na fazenda durante a década de 90, foi quase que exclusivamente devido à exploração do poder de mercado, e não aos serviços extras fornecidos pelos processadores e varejistas. É questionável se deveremos pagar tanto para uma embalagem do pão quanto para os nutrientes que contém. Além disto, há uma questão mais fundamental. Os fazendeiros são profissionais, com extenso conhecimento de seus solos, clima, vegetação nativa, fontes de fertilizante ou compostos orgânicos, polinizadores nativos, ecologia e comunidade. Se é que teremos um mundo onde a terra não é mais manejada por estes profissionais e sim gerida por burocracias corporativas distantes, interessadas em extrair o máximo de produção a um mínimo de custo, que tipo de alimentos teremos, e a que preço? Serviços Agrários Sem dúvida, grandes fazendas industriais podem produzir grandes quantidades de alimentos, São, de fato, projetadas para maximizar quantidade. Porém, quando o fazendeiro se torna pouco mais que um produtor da matéria prima de mais baixo custo, mais do que seu bem-estar sofrerá. Embora o setor agrícola tenha perdido poder e lucro, ainda é o elo da cadeia dos alimentos agrícolas que representa a maior parcela de bens públicos da agricultura – incluindo metade dos empregos mundiais, muitas das suas comunidades mais vitais e muitas das suas paisagens mais diversificadas. E ao prover muitos desses bens, as pequenas fazendas claramente levam vantagem. Estabilidade econômica e social local: Há mais de um século atrás, William Goldschmidt, um antropólogo trabalhando no USDA, tentou avaliar como a estrutura e porte de uma fazenda afetam a saúde das comunidades rurais. No San Joaquin Valley, na Califórnia, uma região então considerada como de ponta para a industrialização agrícola, ele identificou duas pequenas cidades, idênticas em todas as dimensões econômicas e geográficas básicas, inclusive no valor da produção agrícola, mas excetuando o tamanho das fazendas. Comparando as duas, constatou uma correlação inversa entre os tamanhos das fazendas e o bem-estar das comunidades das quais faziam parte. A comunidade de pequenas fazendas, Dinuba, sustentava cerca de 20 porcento a mais de pessoas, num padrão de vida consideravelmente mais elevado – incluindo taxas de pobreza mais baixas, menor distinção de classe econômica e social, menor índice de criminalidade – do que a comunidade de fazendas maiores de Arvin. A maioria dos habitantes de Dinuba eram empresários independentes, contra menos de 20 porcento dos residentes de Arvin – muitos dos outros sendo trabalhadores agrícolas. Dinuba tinha duas vezes mais estabelecimentos comerciais do que Arvin, e realizava 61 porcento mais de negócios no varejo. Tinha mais escolas, parques, jornais, organizações civis e igrejas, como também melhor infra-estrutura física – ruas pavimentadas, calçadas, coleta de lixo, esgoto e outros serviços públicos. Dinuba também tinha maior número de instituições para tomada de decisões democráticas e uma participação mais ampla de seus cidadãos. Cientistas políticos há muito reconhecem que uma base ampla de empresários independentes e proprietários de imóveis é um ponto chave para uma democracia sadia. A distinção entre Dinuba e Arvin indica que a agricultura industrial pode estar limitada naquilo que pode representar para uma comunidade. Menos empregos (e menos importantes), menos gastos públicos e um fluxo hemorrágico de lucros para proprietários ausentes e fornecedores distantes significa que as fazendas industriais podem, na realidade, ser um dreno na economia local. Esta hipótese é corroborada por Dick Levins, um economista agrícola da Universidade de Minnesota. Levins estudou a receita econômica do Condado Swift, em Iowa, uma comunidade típica de milho e soja no Centro-Oeste, e constatou que embora as vendas agrícolas totais estejam no ponto mais alto da história, a receita agrícola está desalentadoramente baixa – e que muitos daqueles que eram outrora os sustentáculos financeiros da comunidade, estão hoje altamente endividados. “A maior parte do Cinturão do Milho nos Estados Unidos, como o Condado Swift, é uma colônia, dominada e operada por pessoas que não residem lá,” diz Levins. Na realidade, a maioria das terras do Condado Swift é arrendada, a maior parte de proprietários ausentes. Esse novo raciocínio na agricultura pode estar eliminando o papel tradicional das pequenas fazendas no ancoramento das economias rurais – o tipo de tradição, por exemplo, que vimos na ênfase dada ao apoio das pequenas fazendas no Japão, Coréia do Sul e Taiwan, após a II Guerra Mundial. Esta ênfase, que trouxe uma reforma agrária radical e centrou investimentos em áreas rurais, é largamente citada como tendo sido um grande estímulo à prosperidade econômica que esses países desfrutaram. Conseqüentemente, quando as perspectivas econômicas das pequenas fazendas declinam, o tecido social das comunidades rurais começa a romper. Nos Estados Unidos, as famílias agrícolas tem mais do dobro de possibilidades, em comparação aos outros, de viverem na pobreza. Têm menos instrução e menores taxas de proteção médica, juntamente com maiores índices de mortalidade infantil, alcoolismo, abuso infantil, abuso matrimonial e tensão mental. Por toda a Europa, evidencia-se um padrão semelhante. E na África sub-saariana, a socióloga Deborah Bryceson, do Centro de Estudos Africanos da Holanda, analisou os deslocamentos de pequenos produtores e constatou que “à medida que se desfaz o agrarianismo, os sinais de disfunção social associados às áreas urbanas (incluindo pequenos crimes e colapso de laços familiares) emergem nos vilarejos.” As pessoas sem um emprego significativo freqüentemente se tornam frustradas, porém os fazendeiros podem ser um caso especial. “Mais do que outras ocupações, a agricultura representa um meio de vida e define sua personalidade, “diz Mike Rosemann, um psicólogo que dirige uma rede de consultoria para agricultores em Iowa. “A perda da fazenda familiar, ou a perspectiva de perdê-la, pode gerar um sentimento profundo de culpa e ansiedade, como se tivesse falhado na proteção do patrimônio que seus ancestrais se esforçaram para conquistar.” Uma medida do desespero é o aumento mundial no número de suicídios entre agricultores. Em 1998, mais de 300 produtores de algodão em Andhra Pradesh, na Índia, suicidaram-se ingerindo os pesticidas que se endividaram para adquirir, mas que não serviram para salvar suas lavouras. Na Grã-Bretanha, trabalhadores agrícolas têm duas vezes e meia maior probabilidade de cometerem suicídio do que o resto da população. Nos Estados Unidos, estatísticas oficiais mostram que os fazendeiros hoje estão cinco vezes mais propensos a cometerem suicídio do que de morrerem por acidentes na fazenda, tradicionalmente a causa mais freqüente de mortes não naturais. O número real pode até ser maior, pois os serviços de apoio à vida informam que freqüentemente recebem chamadas de fazendeiros que desejam saber que tipos de acidentes (Cair nas lâminas da colheitadeira? Ser alvejado numa caçada?) são menos prováveis de serem investigados pelas companhias de seguro que não pagam indenizações por suicídios. Seja por desespero ou por ira, os fazendeiros parecem cada vez mais dispostos a enfrentarem, às vezes violentamente, o governo, ricos latifundiários ou gigantes do agronegócio. Nos anos recentes testemunhamos a revolução Zapatista em Chiapas, a ocupação de fazendas de brancos pelos negros sem terra de Zimbábue e os ataques dos fazendeiros europeus aos armazéns que estocavam sementes geneticamente modificadas. No livro Harvest of Rage [tradução livre: Colheita da Fúria] o jornalista Joel Dyer liga a explosão na Cidade de Oklahoma que matou quase 200 pessoas – como também o aumento das milícias da direita radical e anti-governamental na região central dos Estados Unidos – a um desespero e ira crescentes, decorrentes da crise agrícola contínua. Thomas Homer-Dixon, diretor do Projeto sobre Meio-Ambiente, População e Segurança, da Universidade de Toronto, considera o deslocamento de fazendeiros e o conseqüente desemprego e pobreza rural, como uma das ameaças mais sérias à segurança nas décadas futuras. Este deslocamento é responsável por cerca da metade do crescimento das populações urbanas por todo o Terceiro Mundo, que ocorre em favelas voláteis já pressionadas para atender às necessidades básicas de seus habitantes. “O que foi uma transição extremamente traumática para a Europa e América do Norte, de uma sociedade rural para uma urbana, hoje se processa duas a três vezes mais rapidamente nos países em desenvolvimento,” diz Homer-Dixon. Mas, estas nações estão consideravelmente menos industrializadas para absorver a mão-de-obra. Esta transição acelerada lança desafios gigantescos de ajuste para a Índia e a China, onde talvez um bilhão e meio de pessoas ainda retiram seu sustento da terra. Estabilidade ecológica: Nos planaltos andinos, uma única fazenda pode ter de 30 a 40 variedades distintas de batatas (juntamente com inúmeras outras plantas nativas), cada uma possuindo solos ótimos ligeiramente diferenciados, como também água, luz e regimes de temperatura que o fazendeiro – com tempo suficiente – pode administrar. (Em comparação, nos Estados Unidos, apenas quatro variedades intimamente relacionadas, representam cerca de 99 porcento de todas as batatas produzidas.) Porém, de acordo com Karl Zimmerer, um sociólogo da Universidade de Wisconsin, as rendas agrícolas declinantes nos Andes forçam mais e mais produtores a se transformarem em mão-de-obra migrante, durante parte do ano, com graves impactos na ecologia agrícola. À medida que o tempo encurta, o agricultor maneja o sistema mais homogeneamente – reduzindo o número de variedades tradicionais (uma pequena horta de variedades culinárias favoritas pode ser o último refúgio da diversidade), e aumentando a produção de algumas variedades comerciais. A maior parte da diversidade agrícola tradicional é perdida.
Sistemas agrícolas complexos requerem um conhecimento íntimo e altamente sofisticado da terra – algo que os pequenos produtores, com dedicação integral, estão mais aptos a desenvolver. Duas ou três culturas diferentes, com diferentes profundidades de raízes, por exemplo, freqüentemente podem ser cultivadas na mesma extensão de terra, ou lavouras que exigem drenagem diferente podem ser plantadas próximas umas às outras em terreno com topografia diferenciada. Porém, estes tipos de cultivo não podem ser realizados com tratores pesados em alta velocidade. O cultivo altamente específico em termos de local e intensivo em manejo, requer engenhosidade e consciência da ecologia local, e não pode ser realizado com equipamentos pesados e aplicações fortes de agrotóxicos. Isto não quer dizer que ser pequeno é sempre o suficiente para assegurar uma produção de alimentos ecologicamente segura, pois a adversidade econômica pode levar pequenas fazendas, como também as maiores, a comprometerem a produção sustentável pela transmutação da arte do manejo da terra, no trabalho bruto de produção de commodities. Mas uma fazenda em larga escala, altamente mecanizada, simplesmente não está equipada para preservar a complexidade natural. Ao invés, seu modo normal é o uso de instrumentos de manejo grosso, como lavouras geneticamente modificadas para gerarem inseticidas, tornando desnecessária a checagem do campo para verificação se há realmente necessidade de pulverização. No Centro-Oeste dos Estados Unidos, à medida que as dimensões das fazendas aumentaram os sistemas de cultivo se tornaram mais simplificados. Desde 1972, o número de condados com mais de 55 porcento de sua área cultivada com milho e soja quase triplicou, de 97 para 267 acres. À medida que aumentavam, a maior simplicidade de manejo da rotação milho-soja (uma fazenda de 800 acres, por exemplo, não requer mais de duas semanas de plantio na primavera e umas poucas semanas de colheita no outono) tornou-se seu principal argumento de venda. Os vários ramos da economia agrícola na região, desde serviços de extensão aos silos supridores de sementes, começaram a se solidificar em torno dessa rotação milho-soja, reforçando o movimento dos fazendeiros para fora de outras lavouras. Reduziram-se cada vez mais os criadores, pois a carne bovina e suína eram “econômicas” apenas em outras partes do país onde se concentravam mais. A saída da pecuária significou o abandono do trevo, mistura de pastos e uma fonte chave de adubo no Centro-Oeste, e criou tremendas concentrações de esterco em outros locais. Porém, a rotação do milho e da soja – uma monocultura seguida da outra – é extremamente ineficiente ou “vazadora” em seu uso de fertilizantes aplicados, uma vez que o baixo nível de biodiversidade tende a deixar vários nichos vazios no campo, incluindo diferente profundidades de raízes e diferentes preferências de nutrientes. Ademais, a mudança no Centro-Oeste para a monocultura submeteu o país a um ataque duplo de poluição por nitrogênio, uma vez que não apenas a remoção e concentração do gado tendem a depositar enormes quantidades de fezes nas áreas (como Utah e Carolina do Norte) onde hoje se desenvolve a pecuária, mas também as monoculturas que ficam no Centro-Oeste retêm muito menos nitrogênio do que reteriam, caso sua lavoura fosse mais complexa. (A adição de apenas uma cultura de centeio no inverno à rotação milho-soja, reduz o escoamento do nitrogênio em quase 50 porcento.) E talvez este desastre em potencial devesse ser realmente considerado como um ataque triplo pois, além de contaminar os mananciais do Centro-Oeste, o escoamento acaba no Golfo do México, onde o nitrogênio alimenta eflorescências maciças de algas marinhas. Quando as algas morrem, são decompostas por bactérias cuja respiração exaure o oxigênio da água – sufocando os peixes, crustáceos e todas as outras formas de vida. Este processo torna, periodicamente, 20.000 quilômetros quadrados do mar no litoral da Louisiana biologicamente mortos. Assim, o ato de simplificar a ecologia de um campo em Iowa pode contribuir para poluir dramaticamente Utah, Carolina do Norte, Louisiana e Iowa. A biodiversidade agrícola do mundo – a apólice de seguro final contra variações climáticas, surtos de pragas e outras ameaças imprevisíveis à segurança alimentícia – depende em grande parte dos milhões de pequenos fazendeiros que utilizam essa diversidade em seus ambientes locais de cultivo. Porém, a marginalização dos fazendeiros que desenvolveram ou herdaram sistemas agrícolas complexos durante várias gerações, significa muito mais do que apenas a perda de variedades específicas de culturas e do conhecimento de como podem ser melhor cultivadas. “Perdemos para sempre o melhor conhecimento e experiência disponíveis de locais, inclusive o que fazer com terras marginais inadequadas para produção industrial,” diz Steve Gleissman, um agro-ecólogo da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Os 12 milhões de porcos criados pela Smithfield Foods Inc., maior produtora e processadora de suínos do mundo e pioneira na integração vertical, são quase geneticamente idênticos e criados sob condições idênticas – independentemente de estarem num confinamento da Smithfield em Virginia ou no México. À medida que os fazendeiros se tornam cada vez mais integrados à cadeia alimentícia do agronegócio, exercem cada vez menos controle sobre a totalidade do processo produtivo – assumindo mais e mais uma função de “aplicadores de tecnologia” ao invés de gestores tomando decisões abalizadas e independentes. Pesquisas recentes do USDA sobre avicultores sob contrato nos Estados Unidos, constataram que ao procurar assessoria externa para suas atividades, estes criadores hoje se voltam primeiramente para os banqueiros e depois para as corporações que detêm seus contratos. Caso a corporação contratante seja a mesma empresa vendedora da semente e fertilizante, como ocorre freqüentemente, há uma grande possibilidade dos procedimentos da empresa serem seguidos. Essa corporação, como um empreendimento global sem maiores compromissos locais, estará também menos preocupada com a poluição e degradação de recursos criadas por tais procedimentos, pelo menos em comparação a um fazendeiro radicado na comunidade. Contratos de produtores geralmente não assumem responsabilidades ambientais. E há a contaminação ecológica característica da agricultura industrial em larga escala. Atividades colossais de confinamento de gado – aqueles “outros locais” onde o gado fica concentrado quando não são mais vistos nas fazendas de soja e milho do Centro-Oeste – constituem talvez o exemplo mais flagrante de uma agricultura que, como uma barcaça de lixo numa lagoa de peixinhos, ultrapassam a escala que um ecossistema pode suportar. Os confinamentos são cada vez mais a norma na pecuária pois, da mesma forma que a monocultura, viabilizam a produção de imensas populações de gado que pode ser abatido e comercializado a custos baixíssimos. Mas a desconexão entre o gado e a terra utilizada para produzir sua ração significa que tais confinamentos geram volumes gigantescos de despejo que o solo não pode absorver. (Uma fazenda em Utah cria mais de cinco milhões de porcos num ano, gerando o mesmo lixo diário que a cidade de Los Angeles.) O lixo é geralmente depositado em grandes lagoas que tendem a vazar e até mesmo transbordar durante tempestades fortes. Da Carolina do Norte até a Coréia do Sul, o fedor insuportável dessas lagoas – uma combinação de sulfeto de hidrogênio, amônia e gás metano, que cheira a ovo podre – torna quilômetros de áreas circunvizinhas inabitáveis. Uma forma diferente de perturbação ecológica resulta das condições sob as quais esses animais são criados. Uma vez que o número maciço de animais em confinamento é altamente suscetível a infecções e o uso constante de antibióticos pode incrementar ligeiramente o crescimento animal, tornou-se usual na criação industrial de animais o uso excessivo de antibióticos. Nos últimos meses, tanto os Centros de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos e a Organização Mundial de Saúde identificaram estas atividades de alimentação industrial como as causas principais da crescente resistência aos antibióticos por parte de bactérias geradas pelos alimentos, como salmonella e campylobacter. Enquanto a tomada de decisão na cadeia alimentícia se torna cada vez mais concentrada – fechada por trás de poucas portas corporativas – podem existir outras questões de segurança alimentícia que nem tomamos conhecimento, particularmente na área emergente de organismos geneticamente modificados (GMOs, em inglês). Em reação à preocupação pública crescente sobre os GMOs, uma coalizão que candidamente se denomina “Aliança para Alimentos Melhores” – na realidade composta de grandes varejistas e processadores de alimentos, empresas de biotecnologia e organizações agrícolas com financiamento corporativo – lançou uma campanha “educativa” de US$ 50 milhões, além de doar mais de US$ 676.000 a legisladores e partidos políticos americanos em 1999 para impedir a rotulagem obrigatória desses alimentos. Talvez mais surpreendente para as pessoas que apenas casualmente acompanharam o debate sobre os valores da pequena fazenda versus a “eficiência” da fazenda-fábrica, seja o fato que uma vasta gama de evidências demonstra que as pequenas fazendas são, na realidade, mais produtivas do que as grandes – chegando até a 200/1.000 porcento de maior produção por unidade de área. Como é que isto se harmoniza com as alardeadas vantagens de produtividade das atividades mecanizadas, de grande escala? A resposta é simplesmente que estas vantagens são sempre calculadas na base do quanto de uma lavoura a terra produzirá por acre. Entretanto, a maior produtividade de uma fazenda menor, mais complexa, é calculada na base de quanto alimento em geral é produzido por acre. A fazenda menor pode cultivar várias lavouras utilizando diferentes profundidades de raízes, altura das plantas ou nutrientes, na mesma área de terra simultaneamente . É esta “policultura” que dá a vantagem de produtividade à pequena fazenda. A fim de ilustrar a diferença entre essas duas medidas, consideremos uma grande fazenda de milho do Centro-Oeste. Esta fazenda pode produzir mais milho por acre do que uma pequena propriedade, onde o milho é cultivado como parte de uma policultura que também inclui feijão, abóbora, batata e ervas que servem para ração. Porém, em produto global, a policultura – sob estreita supervisão de um fazendeiro experiente – produz muito mais alimento, seja medido por peso, volume, bushels, calorias ou dólares. A relação inversa entre o porte da fazenda e o produto pode ser atribuída ao uso mais eficiente da terra, água e outros recursos agrícolas das quais a pequena fazenda dispõe, inclusive as eficiências do intercultivo de vários vegetais na mesma área, com plantios múltiplos durante o ano, estabelecendo metas de irrigação e integrando a agropecuária. Assim, em termos de conversão de insumos em produtos, a sociedade se daria melhor com fazendeiros em pequena escala. E à medida que a população continua a crescer em muitos países e os recursos agrícolas continuam a encolher, uma pequena estrutura de cultivo pode ser fundamental para o atendimento das necessidades futuras de alimentos. Reconstruindo os Armazéns de Alimentos Ao se ver a variedade de pressões que afligem os fazendeiros não é difícil entender o desespero crescente. A situação se tornou explosiva, e se a estabilização da erosão da cultura e ecologia agrícolas é hoje crucial não apenas para os fazendeiros, mas para todos que se alimentam, ainda resta uma questão desafiadora sobre que estratégia funcionará. Os gigantes do agronegócio estão bem enraizados hoje e protestos dispersos terão o mesmo efeito neles como uma mordida de mosquito num trator. As perspectivas dos fazendeiros conquistarem força política por conta própria são fracas, pois seus números – pelo menos nos países industrializados – continuam a encolher. Uma maior esperança para mudança pode estar numa união de forças entre os fazendeiros e o maior número de outros segmentos da sociedade que hoje vêem os perigos, para seus próprios interesses, da reestruturação contínua do campo. Há alguns modelos proeminentes para essas coalizões, nas várias áreas que se juntaram para lutar contra os projetos de aumento das capacidades de barcaças do Mississipi e da hidrovia brasileira que estão sendo promovidos em nome da produtividade global da soja. O grupo americano reuniu pelo menos os seguintes aliados fluviais: • Grupos ambientalistas nacionais, incluindo o Sierra Club e a National Audubon Society, que estão alarmados com a perspectiva de um bem comum ser danificado, em benefício de um pequeno grupo de interesse comercial; • Fazendeiros e organizações de apoio à agricultura, preocupados com o poder imoderado sendo exercido por um oligopólio dos agronegócios; • Grupos de contribuintes irados com a perspectiva de incentivos ao bem-estar corporativo que esvaziará mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos; • Caçadores e pescadores preocupados com a perda de habitats; • Biólogos, ecólogos e observadores de aves preocupados com as inúmeras espécies ameaçadas de aves, peixes, anfíbios e vegetais; • Grupos de capacitação local preocupados com os impactos da globalização econômica sobre as comunidades; • Economistas agrícolas temendo que o projeto consolide ainda mais a dependência dos fazendeiros na exportação de commodities a granel, de baixo custo, perdendo assim oportunidades valiosas de manter recursos na comunidade, através da moagem, envasilhamento, cozimento e processamento locais. Uma coalizão paralela de grupos ambientalistas e de apoio à agricultura foi formada no hemisfério Sul para resistir à expansão da hidrovia. Lá, também, a campanha é parte de uma outra, maior, que desafia a hegemonia da agricultura industrial. Por exemplo, foi formada uma coalizão em torno do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, uma organização no Brasil que ajuda os trabalhadores sem terra a realizar ocupações de terra improdutiva de propriedade de ricos latifundiários . Esta coalizão inclui 57 organizações agrícolas com base em 23 países. Também reuniu grupos ambientalistas da América Latina preocupados com os empreendimentos afins de extração de madeira e pecuária, favorecidos pelos grandes proprietários; prefeitos de municípios rurais que reconhecem o incremento que os fazendeiros podem dar às economias locais; e organizações sociais das cidades brasileiras, que vêem a ocupação de terras como uma alternativa às favelas. Os projetos do Mississipi e da hidrovia brasileira, gigantescos como são, ainda representam apenas dois entre centenas de empreendimentos agro-industriais que estão sendo contestados em todo o mundo. Todavia, as coalizões que se formaram em torno deles representam o tipo de reação concentrada com mais probabilidade de refrear o gigante, em parte porque as soluções que essas coalizões propõem não são expressões vagas ou quixotescas de idealismo, mas sim práticas e localizadas. No caso da aliança em torno do projeto do Rio Mississipi o trabalho da coalizão incluiu o questionamento das premissas da análise do Corpo de Engenharia, o lobby para um exame antimonopolista dos cartéis de agronegócios e a exigência de modificações aos subsídios agrícolas existentes nos Estados Unidos, direcionados desproporcionalmente aos grandes fazendeiros. Grupos ambientalistas estão procurando restabelecer um equilíbrio entre o uso do Mississipi como transportador de barcaças e uma bacia hidrográfica intacta. Simpatizantes agrícolas estão promovendo alternativas à rotação-padrão do milho-soja, incluindo a produção certificada de lavouras orgânicas que possam simultaneamente reduzir os custos de insumos e obter um ágio para o produto final, reduzindo a poluição por nitrogênio. Os Estados Unidos e Brasil podem ter cometido erros custosos ao conceder tamanho poder ao agronegócio para reconfigurar rios e terras para seu próprio uso. Porém, a estratégia de coalizões interligadas pode se mobilizar a tempo para resgatar muito da saúde agrícola mundial, antes que seja tarde demais. Dave Brubaker, Diretor do Projeto Spira/GRACE sobre Produção Animal Industrial, da Faculdade de Saúde Pública da Johns Hopkins University, vê essas várias coalizões como “o início de uma revolução sobre a forma de vermos o sistema alimentício, aliando a produção de alimentos com o bem-estar social, saúde humana e o meio-ambiente.” O projeto de Brubaker reune autoridades de saúde pública em torno do uso excessivo de antibióticos e contaminação hídrica resultantes do dejeto súino; fazendeiros e comunidades locais que se opõem à disseminação de novas fazendas fábricas, ou que desejam o fechamento das existentes; e uma falange de aliados naturais com campanhas afins, incluindo ativistas dos direitos animais, sindicatos trabalhistas, grupos religiosos, ativistas de direitos do consumidor e grupos ambientalistas. “À medida que o círculo de partes interessadas se alarga, a aliança encurta a distância entre os fazendeiro e o consumidor,” observa Mark Ritchie, Presidente do Instituto de Agricultura e Política Comercial, um grupo de pesquisa e defesa freqüentemente no centro dessas parcerias. Esta maior proximidade pode se tornar crucial para a sustentabilidade final do nosso abastecimento, uma vez que hábitos de compra social e ecologicamente seguros não são apenas o resultado passivo de mudanças na forma em que os alimentos são produzidos, mas podem efetivamente ser as forças motrizes mais poderosas dessas mudanças. A explosão de mercados agrícolas, agricultura sustentada pela comunidade e outros acertos de compra direta entre fazendeiros e consumidores, aponta para o número crescente de não-fazendeiros que já mudaram seu papel na cadeia alimentícia: de escolher entre dezenas de milhares de marcas de alimentos ofertadas por uma dezena de empresas, para se desviarem totalmente dessas marcas. E, uma vez que muitos dos aditivos e etapas de processamento que compõem o grosso do dólar do alimento são simplesmente as conseqüências inevitáveis do tempo cada vez maior que o alimento comercial hoje passa no trânsito e armazenagem globais, este encurtamento da distância entre produtor e consumidor não apenas beneficiará a cultura e ecologia das comunidades agrícolas. Também nos dará acesso a alimentos mais frescos, gostosos e nutritivos. Felizmente, como qualquer mercador pode dizer, estas características têm venda fácil.
B. Halweil é pesquisador do WWI-Worldwatch Institute. Artigo publicado na Revista World Watch - http://www.wwiuma.org.br. Publicado en nuestro sitio en noviembre 2005. Se reproduce en nuestro sitio únicamente con fines informativos y educativos. |
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